Pular para conteúdo


O conceito de Transtorno do Espectro Autista (TEA) inclui os casos de transtornos do desenvolvimento caracterizados por (1) déficit precoce de interação e comunicação social, além de (2) padrões de comportamento e interesses restritos e estereotipados (APA, 2013).

Mas o que significa “déficit precoce de interação e comunicação social”? Crianças diagnosticadas com TEA mostram, desde antes dos três anos de idade, falta de interesse por interações sociais, particularmente com crianças de sua idade, isolamento, baixa reciprocidade no olhar face a face, o que acarreta atraso moderado ou severo no aprendizado da linguagem.

Quanto se fala em “padrões de comportamento e interesses restritos e estereotipados”, está se referindo ao fato de a criança poder apresentar interesse e apego exagerado a alguns objetos ou assuntos específicos (como um determinado brinquedo, objetos giratórios, letras, números ou temas como dinossauros, uma língua estrangeira etc). Além disso, elas podem ter apego exagerado a suas rotinas, se tornando muito difíceis de manejar em situações de alteração do cotidiano.

Crianças diagnosticadas com TEA podem ter reações exageradas a certos estímulos (hipersensibilidade) ou mostrar pouca ou nenhuma reação a outros estímulos (hipossensibilidade). Assim, elas podem ser, por exemplo, muito sensíveis a ruídos (como ruídos de motores, fogos de artifícios, conversação de pessoas em voz alta) ou pouco sensíveis, por exemplo, à fala das outras pessoas, muitas vezes levando à falsa suposição dos pais de que a criança tenha algum nível de surdez. Esses padrões atípicos de sensibilidade sensorial também podem se estender a outras formas de estimulação como a estimulação tátil (a criança pode ser hipersensível ao toque evitando contato físico com outras pessoas) ou a textura dos alimentos.

Algumas crianças diagnosticadas com TEA podem mostrar comportamento agressivo. Isso também é verdade para crianças com desenvolvimento típico. Quantas vezes presenciamos ou ouvimos falar de crianças que batem ou mordem coleguinhas na escola? Mas, no caso de crianças diagnosticadas com TEA esse tipo de comportamento pode se tornar mais frequente e mais intenso, o que pode preocupar pais, cuidadores, professores. Comportamentos autolesivos (a criança se machucar, morder partes do seu próprio corpo ou bater partes do corpo contra paredes ou chão) e comportamentos agressivos (machucar outras pessoas) não são uma característica dos TEA. Esses comportamentos podem surgir provavelmente como uma consequência do déficit de interação e comunicação. A criança muitas vezes não aprende a solicitar verbalmente o que deseja ou pedir ajuda para aliviar ou afastar-se de algum incômodo. Nessas situações, a criança pode então ficar agressiva ou mostrar comportamento autolesivo. Quando esses comportamentos ocorrem, a criança acaba por receber a atenção de seus cuidadores que só então percebem as necessidades da criança. Assim, o comportamento auto ou heterolesivo passa a ser uma importante forma de a criança mobilizar os outros. Em outros casos, esses comportamentos nada têm a ver com obtenção de atenção. Por exemplo, comportamento autolesivo pode também ter a função de autoestimulação, ou seja, ele pode ser uma forma de suprir o déficit de estimulação social com estimulação gerada pela própria criança, mesmo que pela sua repetição essa estimulação acabe por gerar lesões.

Até maio de 2013, quando estava em vigor a quarta revisão do Manual Diagnóstico e Estatístico de transtornos mentais (DSM-IV, APA, 1995/2002), os casos de autismo eram classificados dentro de uma categoria maior intitulada Transtornos Globais do Desenvolvimento. Essa categoria incluía o Transtorno de Rett, o Transtorno Desintegrativo da Infância, além do Transtorno de Asperger, do Transtorno Autista Clássico e do Transtorno Global do Desenvolvimento Sem Outra Especificação (TGD-SOE). Embora essa categoria incluísse esses cinco diagnósticos, com o desenvolvimento das pesquisas, passou-se a considerar, pela sua semelhança, os três últimos diagnósticos (Transtorno de Asperger, Transtorno Autista Clássico e Transtorno Global do Desenvolvimento Sem Outra Especificação) como pertencentes ao Espectro Autista, diferentemente dos outros dois diagnósticos (Transtorno de Rett e o Transtorno Desintegrativo da Infância).

A partir de maio de 2013, quando foi publicada a quinta revisão do Manual Diagnóstico e Estatístico de transtornos mentais (DSM-V, APA, 2013), foi criada a categoria dos Transtornos do Espectro Autista, uma categoria à parte dos TGD. Assim, os casos de autismo passaram a constituir uma nova categoria, a categoria dos TEA. Alem disso, dentro da categoria TEA, desapareceram os diagnósticos de Transtorno de Asperger, Transtorno Autista Clássico e Transtorno Global do Desenvolvimento Sem Outra Especificação. A distinção entre os casos passou a ser feita com base na severidade dos sinais, categorizada em três níveis (Nível 1 a Nível 3). Quando maior o nível, maior a severidade do comprometimento. Assim, por exemplo, os casos diagnosticados até 2013 como Transtorno de Asperger, que em geral apresentam os menores níveis de comprometimento, tendem a passar à denominação de Transtorno Autista Nível 1.

Os casos de autismo ocorrem com bastante frequência na população em geral. Os levantamentos recentes feitos nos Estados Unidos apontam que cerca de 1 a 2% da população pode ter algum nível de autismo. Se essa prevalência for confirmada na população brasileira, o autismo pode ser considerado um problema altamente desafiador para o sistema de saúde e de educação brasileiros, configurando-se como um problema social de grande relevância. Infelizmente não há estudos completos sobre a incidência de casos de autismo no Brasil. Um estudo parcial feito na cidade de Atibaia, São Paulo, apontou a incidência de 0,27% (Paula, Ribeiro, Fombonne, & Mercadante, 2011). A incidência real pode ser muito mais alta que isso.

O diagnóstico diferencial de autismo é bastante difícil e requer a participação de profissional especificamente treinado para tal. Não há exames laboratoriais que possam detectar autismo. O diagnóstico é, portanto, clínico e está baseado em grande medida na observação do comportamento da criança e na entrevista de seus cuidadores. O profissional capacitado para fazer o diagnóstico (na grande maioria das vezes um médico ou uma equipe multidisciplinar que inclua um médico pediatra ou neuropediatra) pode requerer, por exemplo, mapeamento genético, tomografias ou mesmo laudos fonoaudiológicos, como forma de descartar outros diagnósticos possíveis.

As causas do autismo ainda são, em grande medida, desconhecidas. Uma boa parte dos pesquisadores dedicados ao estudo do autismo concorda que se trata de um transtorno do neurodesenvolvimento, mas ainda não é possível determinar com precisão, por exemplo, a parcela de participação genética e ambiental.

É possível supor que os casos têm uma parcela de influência genética, na medida em que já foram categorizados alguns genes que parecem estar correlacionados com a ocorrência dos casos de autismo, mas há casos diagnosticados em que nenhuma alteração nesses genes foi encontrada, bem como há casos de irmãos em que um tem o diagnóstico e outro não, mas ambos têm uma determinada alteração genética. A influência genética também pode ser depreendida do fato de que um casal que tem uma criança diagnosticada com autismo tem chance maior de ter uma segunda criança com diagnóstico do que a população em geral. Outro fato é que a grande maioria dos casos (cerca de 70%) é de meninos.

A hipótese mais provável é que o autismo tenha uma base genética, mas que a participação de fatores ambientais seja muito importante para a manifestação de seus sinais.



galeria de fotos:

parceiros